Jornal da Universidade Federal do Pará. Ano XXX Nº 130. Abril e Maio de 2016

A fundação do campus pioneiro da UFPA
por Walter Pinto
foto Arquivo UFPA

 

Inaugurado em 13 de agosto de 1968, com a presença do presidente da República, general Arthur da Costa e Silva, o Campus Pioneiro da Universidade Federal do Pará insere-se dentro da filosofia adotada nas universidades brasileiras, na década de 1960, de definição de um território universitário capaz de centralizar as atividades de administração, pesquisa, ensino e extensão. No caso da UFPA, essas atividades eram realizadas em unidades isoladas, instaladas em prédios localizados em diferentes pontos de Belém.

O primeiro passo efetivo para viabilizar a construção do campus ocorreu no início de 1963, quando o reitor José da Silveira Neto autorizou o Departamento de Planejamento e Obras da UFPA a elaborar Termo de Referência sobre as condições mínimas exigíveis para a área onde deveria ser construído o campus. Paralelamente, foram realizados entendimentos junto ao Instituto de Pesquisas Agropecuárias do Norte, para cessão de área às margens do rio Guamá, com superfície equivalente a 200 hectares. Alguns meses depois, o Ministério da Agricultura autorizou a doação da área.

O engenheiro e arquiteto Alcyr Meira, diretor do Departamento de Planejamento e Obras, conta que teve início, então, um longo processo de negociação com os proprietários de terrenos contíguos à área cedida pelo IPEAN, encerrado, em meados de 1964, com a desapropriação de uma área de 294 hectares, pelos valores acordados com seus proprietários. A extensa área de 449,83 hectares, às margens do rio Guamá, dentro do perímetro urbano de Belém, seria a base física para implantação do futuro campus universitário.

Meira lembra dos momentos em que foi iniciado o reconhecimento do terreno: "calçando botas de borracha, de cano longo até os joelhos, nos deslocávamos no alagado enquanto cobras deslizavam ao nosso lado. Eram muitas cobras, mas muitas cobras mesmo! Aliás, ali havia tudo que é bicho que se possa imaginar...até gato maracajá. Durante cerca de um ano fomos os maiores fornecedores de cobras para o Instituto Butantã, em São Paulo!".

O atual campus I (básico) foi projetado nos terrenos desapropriados de Affonso Freire, Antonio Cabral e outros, cujo acesso mais viável era pela rua Bernardo Sayão. Essa área abastecia de argila uma antiga olaria que funcionou em seu interior. Os buracos deixados pela retirada de argila e a topografia natural dos terrenos contribuíam para o alagamento da área, sendo necessária a realização de um grande trabalho de aterro hidráulico. Utilizando uma draga de sucção para retirada de areia de granulometria grossa do leito do rio Guamá, foi, então, realizada a compactação do solo.

Os projetos que deram origem aos prédios do campus I foram elaborados pela Comissão de Planejamento do Conjunto Universitário, coordenada por Alcyr Meira e composta por Milton Monte, Rui Vieira, Jorge Derenji, Luis Fernando Alencar, José Freire, Jaime Bibas, Armando Couceiro, Alberto Rubim e Manoel Maia da Costa. O acordo MEC/BID colaborou para a formação de know-how em planejamento de campi nas universidades federais, que não tinham, naquela época, tradição na área.

Segundo Meira, o planejamento adotado para o campus da UFPA centrou-se na criação de espaços destinados a atividades similares, comuns, eliminando-se os espaços ociosos. "Expurgamos os feudos, as salas de aulas, os laboratórios e os gabinetes de um dono só. Criamos setores de aulas teóricas, de aulas práticas, de gabinetes, cuja ocupação era coordenada e gerenciada por um órgão específico, o Departamento de Registro e Controle Acadêmico", explica o arquiteto. Em agosto de 1968, o Campus Pioneiro foi inaugurado. No ano seguinte, José Rodrigues da Silveira Neto concluiu seu mandato de reitor.

A ampliação da base física em Belém e no interior

A construção do Campus Universitário Pioneiro foi uma espécie de laboratório para muitos alunos de arquitetura e engenharia que lá estagiaram. No entanto, sua contribuição mais importante foi a de definir um padrão local de projeto de construção. Em 1968, o então estudante de arquitetura José Freire era desenhista da Prefeitura do Campus. Ele lembra que, durante as obras, algumas empresas montaram oficinas para atender às necessidades específicas do projeto. Uma dessas empresas foi a Progresso que produzia esquadrias de acordo com os detalhes projetados por arquitetos e desenhistas da UFPA. Os alunos podiam acompanhar in loco a fabricação das peças e isso contribuiu para criação de um determinado padrão para a arquitetura paraense.

Segundo Freire, a construção do campus pioneiro foi resultado da somatória de conhecimentos tecnológicos até aquele momento. No entanto, se o campus fosse construído hoje, o resultado seria diferente porque os conhecimentos tecnológicos atuais são bem maiores que os daquela época. "Nas escolas de arquitetura e de engenharia não existiam disciplinas sobre conforto ou orientação específica quanto à insolação, sombreamento e radiação em paredes e coberturas. Hoje estaríamos mais preparados para fazer propostas melhores", afirma.

Contudo, o arquiteto, que vem acompanhando a evolução física do campus desde seus primórdios, ressalta a solidez dos prédios, cuja maioria foi construída entre 1976 e 1985, indicando que a arquitetura que os produziu cumpre seu papel até hoje. Na gestão do reitor Clóvis Malcher, Freire assumiu a coordenação do Escritório Técnico Administrativo, unidade responsável pela implementação do Programa Premesu IV, financiado pelo BID, que destinou mais de U$ 40 milhões para expansão do campus, aquisição de equipamentos, qualificação de docentes e treinamento de técnicos. A parte física pôde, então, desenvolver-se de forma bastante significativa, incluindo os prédios da Reitoria e do Atelier de Arquitetura que não estavam previsto pelo Programa.

Nos anos seguintes, a expansão continuou em direção ao setor de saúde, com a construção de outros prédios, entre os quais o Hospital Bettina Ferro de Souza. Paralelamente, o projeto de interiorização da UFPA possibilitou o crescimento da infra-estrutura física para o interior. Atualmente, a UFPA possui dez campi no interior do Estado.

Na atual gestão, o campus do Guamá passou por profundas melhorias, com reformas físicas, construção de novas unidades, substituição de passarelas, instalação de ar refrigerado nas salas de aulas e novo paisagismo, entre outras avanços.