Jornal da Universidade Federal do Pará. Ano XXX Nº 130. Abril e Maio de 2016

Vida e obra de Eneida de Moraes

Livro foi lançado durante 15º aniversário do Gepem

por Abílio Dantas
foto reprodução


"Eneida sempre livre/ Eneida sempre flor/ Eneida sempre viva/ Eneida sempre amor". Os versos de João de Jesus Paes Loureiro definem bem o significado da vida e da obra da escritora Eneida de Moraes.  Sua vitalidade e ternura estão eternizadas em cada linha escrita, em cada amor vivido, em cada conquista política. Por isso o livro Eneida-Memória e Militância Política, escrito pela professora Eunice Ferreira dos Santos e lançado nas comemorações do décimo quinto aniversário do Grupo de Estudos e Pesquisa Eneida de Moraes (Gepem), é um documento precioso para a história brasileira. Tanto proporciona a melhor compreensão de contextos sociais do País, quanto mantém acesa a memória dessa mulher que viveu o seu tempo como poucos.

 

Resultado da tese de doutorado defendida no Programa de Pós-Graduação em Letras da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), o livro é fruto da grande paixão da pesquisadora Eunice dos Santos pela obra de Eneida de Moraes. "Desde a graduação, encantei-me pelos escritos de Eneida. Depois, no curso de mestrado, fiz um trabalho enfatizando a questão textual em sua obra e descobri que havia lacunas históricas sobre seu legado intelectual", afirma a professora. Entre os anos 2000 e 2004, Eunice dos Santos pesquisou por várias cidades do Brasil, consultou, inclusive, o Arquivo Público do Rio de Janeiro (APERJ) e os prontuários da extinta Delegacia de Ordem Política e Social (DOPS) buscando de informações para o seu objeto de pesquisa: uma biografia intelectual de Eneida. Reuniu 5.850 peças documentais que, hoje, fazem parte do acervo do Gepem.

Para contar a história da autora de Aruanda, a estudiosa preocupou-se com uma questão fundamental quando o assunto é a vida de uma escritora: a linguagem. As três partes que compõem o livro são construções literárias e os seus títulos assim como os títulos dos capítulos fazem referência aos textos da biografada. "Ouçam o ruído dos Jacumãs", título da primeira parte, foi retirado de um trecho do livro Cão da Madrugada, primeiro livro da fase memorialística de Eneida.

Aulas particulares despertam pensamento crítico

"Eram três horas e a tarde prometia ser morna". Assim, Eunice dos Santos começa a narrar a vida da militante dedicada do Partido Comunista. Filha de um comandante e de uma professora, o nascimento do pensamento crítico na menina pode ser atribuído às aulas particulares de sua mãe. Nunca faltavam comentários políticos sobre a disputa eleitoral em Belém do Grão Pará. Depois, vieram os livros de autores como Máximo Gorki e Victor Hugo, que lhe emocionavam com narrativas em que os poderosos eram enfrentados. Caminho natural para uma menina, cujo nome fora uma homenagem da mãe à obra clássica do poeta Virgílio, Eneida.

Muito cedo, a menina aprendeu o que era repressão. Ainda não completara dez anos de idade quando foi para o Colégio Sion, internato localizado em Petrópolis. Lá, a rotina era muito rígida. Havia horários fixos para as refeições e limitações quanto aos dias de visita. Talvez tenha sido nesta época que o significado da palavra Aruanda – lugar onde todos podem ser livres e viver em paz – surgiu em sua mente. Durante toda a vida, buscou transformar o mundo em Aruanda, tanto por meio de sua literatura, quanto da vida política.

Quando voltou para Belém, em 1918, o mundo havia passado pela Guerra Mundial de 1914 e novas ideias habitavam a mente de Eneida. Nomes como Stalin (que daria mais tarde para um gato seu), Lênin e Trotsky significavam palavras como transformação, liberdade e justiça; representavam questionamentos profundos ao sistema capitalista.  E a capital do Pará também mudara. Surgiram revistas que já anunciavam o nascimento do Movimento Modernista no Brasil, como A Semana e Efemeris. Neste contexto, a futura escritora começou a escrever seus primeiros ensaios poéticos.

Eneida levou a militância política para fora do Brasil

"Tudo na vida de Eneida era extremamente intenso, vivido com fervor", afirma a pesquisadora Eunice dos Santos. Em seu livro, isso fica explícito quando notamos o envolvimento que há entre a literatura de Eneida e a sua orientação ideológica. A crônica, gênero literário que é fruto da mistura da linguagem poética com o jornalismo, foi escolhida por ela por possibilitar uma aproximação maior com o leitor, já que circulava em jornais.

A partir de 1926, a escritora passou a assinar seus textos apenas com o primeiro nome. Segundo ela, fazia isso para que ninguém responsabilizasse "nem o pai nem o marido pelos delitos que cometesse". Decidida a entrar para o Partido Comunista, em 1930, mudou-se para o Rio de Janeiro, deixando marido e dois filhos em Belém. Durante o governo autoritário de Getúlio Vargas, Eneida sofreu inúmeras prisões. "Em todos os feriados nacionais, Eneida era presa, pois eram nesses dias que costumava haver manifestações contra o governo. E ela já era muito visada", afirma Eunice dos Santos. Sua primeira prisão ocorreu em 1932, por distribuir material de propaganda do partido.

A participação na tentativa de Revolução no Brasil, liderada por Luís Carlos Prestes, em 1935, levou à sua segunda e mais demorada prisão. Eneida passou um ano e cinco meses presa na Casa de Detenção da Rua Frei Caneca, no Rio de Janeiro. Encarcerada na sala 4, foi companheira de mulheres como Maria Werneck de Castro e Olga Benário, da qual foi intérprete na cadeia, pois esta só se comunicava em francês.

Mesmo presa, Eneida continuou extremamente ativa. Criou, junto com seus companheiros que faziam parte do Coletivo, organização que promovia oficinas e comícios no pátio da prisão, a Rádio Liberdade. A programação era formada por notícias trazidas pelos visitantes e pela declamação de poemas. Segundo Eunice dos Santos, Eneida tinha uma voz muito bonita e forte, o que a fez contribuir com a locução dos programas. "Pode-se dizer que ela exerceu a profissão de radialista por conta do trabalho na Rádio Liberdade. Por onde passava, ela inventava uma forma de lutar pelas coisas em que acreditava", constata a pesquisadora.

Eneida também levou sua militância política para fora do Brasil. Morou algum tempo em Paris, sendo informante de brasileiros pelo Partido Comunista, e proferiu quatro conferências sobre literatura na China. Nessa viagem ao oriente, foi representando a União Brasileira dos Escritores (UBE), entidade da qual fazia parte com outros escritores, como Jorge Amado e Peregrino Júnior. Muitas organizações e grupos contaram com os esforços e a participação de Eneida ao longo dos anos.

Da autora de História do Carnaval Carioca, nasceu outro tipo de organização, bem menos sisuda – o "Baile do Pierrô". Neste baile, realizado tanto no Rio de Janeiro quanto em Belém, Eneida demonstrava todo o seu amor e respeito pelo carnaval. Carinho retribuído por duas escolas de samba com a realização de sambas-enredo tendo Eneida como tema: o Salgueiro, do Rio de Janeiro, e o Quem São Eles, de Belém, cujo refrão abriu esta matéria.

E se Eneida estivesse viva hoje, estaria lutando pelo quê? "Com certeza, pelas crianças do Brasil. Esse era um tema que a emocionava muito. Eneida, se estivesse viva, estaria lutando pela melhoria da educação", afirma Eunice dos Santos. Infelizmente, a maioria dos livros dessa lutadora está com as edições esgotadas há décadas. É preciso cobrar a reedição dessas obras urgentemente, em respeito ao país pelo qual ela tanto lutou.

Publicado em Fevereirode 2010

comentários (11)
gosto mumto do seus livros
escrito por deborah, abril 11, 2011
a acho que vc escreve os seus livros com munto amor
banho de cheiro e aruanda
escrito por brenda, maio 03, 2011
sao livros inesquecives
gosto muito do livro dela
escrito por alessandra, agosto 12, 2011
eu devo falar que a historia dela é muito inportante pra nos
as suas obras sao inesquecives
escrito por marcio, novembro 12, 2011
acho muito legal as suas obras,e vida ira mi ajudar muito no meu trabaho
Eneida
escrito por \Mauro, novembro 23, 2011
Mulher extraordinária!< Este endereço de e-mail está protegido contra spambots. Você deve habilitar o JavaScript para visualizá-lo. >
comentario
escrito por bruna, maio 23, 2012
eu achei muito interessante descobrir muitas coisas novas e me ajudou a aprender mais
bruna < Este endereço de e-mail está protegido contra spambots. Você deve habilitar o JavaScript para visualizá-lo. >
Muito Bom
escrito por Gilbelle Melo, junho 01, 2012
É sempre muito bom receber informações de uma das maiores escritoras paraenses, quiçá a melhor. Obrigada.
Muito Bom!
escrito por Samuel, junho 06, 2012
Gosto Muito de Suas Obras, Tenho que fazer sua Biografia!
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legal
escrito por nicole, novembro 26, 2012
legal e muito enteresante

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show de bola
escrito por renan guilherme, abril 11, 2013
muito bom e interessante

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Salve Eneida
escrito por Edivania Santos Alves, abril 24, 2013
Estou arrepiada com a leitura do texto Vida e obra de Eneida de Moraes, que relata o lançamento do livro "Eneida. Memória e militância política" da professora Eunice Fereira dos Santos, vinculada ao GEPEM. Minha excitação é produto das informações expostas pela prof. Eunice e entendeo que devemos fazer coro com sua reivindicação pela edição das obras esgotadas desta importante intelectual, pelo bem e autoestima local, regional e nacional. Precisamos em tempos incertos, de vozes como a de Eneida para nosso estímulo e fortalecimento na construção de um outro mundo.

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