Jornal da Universidade Federal do Pará. Ano XXX Nº 130. Abril e Maio de 2016

Arte responde à ocupação da Amazônia

Tipificados, ícones, como tacacá, transformaram-se
em legítimos representantes da identidade local

por Paulo Henrique Gadelha / Janeiro e Fevereiro 2013
foto Ray Nonato/Arquivo O Liberal

 

Transumância de populações nordestinas e sulistas, instalações dos chamados “grandes projetos”, forte investimento de capitais. Esses foram alguns dos fenômenos vivenciados intensamente pela Amazônia contemporânea, no contexto do regime militar. Tais fatos, por conseguinte, alteraram bruscamente – inclusive de forma predatória – a realidade espacial, econômica, social, demográfica e cultural da região, conhecida, outrora, por slogans como “terra sem homens para homens sem terra” e “vazio demográfico”. Essas profundas transformações, naturalmente, desencadearam, localmente, reações de diversas naturezas. Um dos fatores reativos é discutido no livro Entre o mito e a fronteira, do professor Fábio Fonseca de Castro, da Faculdade de Comunicação e do Programa de Pós-Graduação em Comunicação, Cultura e Amazônia da Universidade Federal do Pará (UFPA). No ensaio, o docente defende que uma das respostas ao processo de ocupação da região foi dada pela classe artística e intelectual de Belém.

“O final do século XX foi um período de angústias identitárias, no mundo inteiro. Neste momento, o Pará, e a Amazônia como um todo, vivia uma intensa penetração do capital do Sudeste do País, o que abria novas frentes de colonização, além de outras ações de ocupação pela sociedade nacional brasileira. O objetivo do livro é analisar a reação que fora engendrada por artistas, intelectuais e produtores culturais de Belém, os quais se sentiram compelidos a reivindicar uma suposta ‘identidade amazônica’. Esse processo, abordado pela obra, repercutiu na vida social da cidade, durante as três últimas décadas do século XX”, esclarece o professor.

O título da publicação foi escolhido no sentido de propor a existência de dois polos opostos. Assim, de acordo com Fábio Castro, fronteira seria a ameaça e a efetivação de “abrasileiramento” da Amazônia, enquanto o mito, a busca por demarcação de identidades regionais. “A sensação de estar entre o mito e a fronteira seria a ideia de que ‘tudo que é sólido desmancha no ar’. O que muitas pessoas julgavam como o seu lugar social, começou a se transformar, de forma extremamente acelerada e violenta, no final do século XX, em lago de Tucuruí, em Ferrovia de Carajás, em Transamazônica. Então, ao sentirem-se desprotegidas, passaram a elaborar, a definir ou a reformular matrizes culturais e identitárias”, considera o pesquisador.

Intersubjetividade segue para política e economia

Um dos pontos centrais da obra diz que a resposta dada por artistas e intelectuais da capital paraense foi uma reação intersubjetiva, ou seja, a produção de um sentido coletivo, comum. Esse ideal de coletividade, de acordo com o professor, gerou uma coesão social, fenômeno no qual um grupo social partilha de uma determinada expectativa de mundo. Assim, consoante o docente, quando se falava, no final do século XX, em Belém, em identidade paraense ou amazônica, referia-se a um fenômeno de intersubjetividade que surge e parte do campo das artes. Contudo esse processo vai espraiando-se em direção a outros setores da sociedade, como a política e a economia.

Como decorrência da reivindicação liderada pela geração de artistas que estiveram entre o mito e a fronteira, começa a ganhar força, na época, um discurso identitário dominante, que transforma a pretendida “identidade amazônica” em um processo de tipificação. “Tipificar algo é torná-lo banal, comum, simples, compreensível por todo um grupo social”, explica Fábio Castro.

Caboclo – Ao longo de Entre o mito e fronteira, o autor faz menção a elementos que, durante as décadas derradeiras do século XX, poderiam ser facilmente encontrados em livros, discos, museus e jornais, os quais simbolizavam as referências identitárias locais. Na obra escrita pelo professor, o elemento considerado mais representativo da região, para a cena cultural e intelectual de Belém da época, exemplo da tipificação da “identidade amazônica’, é o “caboclo”. A canção “Esse rio é minha rua”, destacada no ensaio, ilustra isso. A música narra as vicissitudes de um caboclo que se orgulha de ser um exímio conhecedor do rio por onde navega. Assim, segundo o pesquisador, era comum – e ainda é – referir-se a  caboclos e ribeirinhos como sinônimos.

Para Fábio Castro, o discurso que tipifica a identidade cabocla constitui uma generalização que reduz a diversidade e a experiência social amazônica, padronizando, na mesma tipologia narrativa, populações diferentes, como os quilombolas – além de desconsiderar a diversidade de tipos sociais ribeirinhos. “Os próprios ribeirinhos possuem experiências sociais e históricas muito diferentes entre si. Então, é preciso compreendê-las na sua variedade”, pondera.

Visão fechada simplifica a cultura

O autor do livro acredita que é necessário superar a visão extremamente fechada que, comumente, as pessoas têm da ideia de identidade, o que, segundo ele, tende à totalidade e à unicidade. A pretensa definição de uma “identidade amazônica”, colocada como um problema por artistas, intelectuais e produtores culturais de Belém, nas três últimas décadas do século XX, na tentativa de tipificar a região, não levou em consideração a pluralidade e os processos híbridos vivenciados na Amazônia. Assim, “o fenômeno que na prática existe é a identificação social, ou seja, escolhe-se, produz-se, de forma fragmentada, a própria identidade e a identidade dos outros. A rigor, do ponto de vista sociológico, é mais coerente falar em identificação do que identidade”, defende Fábio Castro.

O principal referencial teórico utilizado na obra é a sociologia fenomenológica do autor austríaco Alfred Schütz, criador deste campo de estudos. Esta corrente teórica, segundo o professor, tende a fazer uma grande crítica à crença de que existe um ideal de verdade, de essência, de identidade; pensamento que atravessa toda a civilização ocidental, no qual as pessoas foram educadas e convencidas a acreditar.

Para o pesquisador, no entanto, o que concretamente existe é “o estar no mundo”. Fora isso, segundo ele, é possível ter fé e querer ter um pertencimento identitário, o que se encerra no plano utópico. Assim, a “identidade amazônica”, reivindicada de forma angustiante pela classe artística e intelectual de Belém, nas décadas finais do século passado, era tão somente um discurso, uma ideia em que apenas se acreditava como verdade.

“A ‘identidade amazônica’ foi tipificada. O tacacá e o açaí, por exemplo, presentes em muitas canções produzidas na região, foram transformados em legítimos representantes da identidade e da cultura local. Dessa forma, cria-se um mal estar quando alguém, de Belém ou de algumas localidades do Pará, diz que não gosta de consumir esses alimentos ou que não se sente representado por eles. O que se percebe, portanto, é um processo de simplificação de toda a complexidade cultural da Amazônia”, finaliza Fábio Castro.

Serviço
Livro Entre o mito e fronteira
Autor: Fábio Fonseca de Castro
Locais de venda: Livraria Humânitas, Livraria da UFPA, Banca do Alvino, Ná Figueiredo, e na internet, por meio do site da Livraria Cultura.
Valor: R$ 36,00

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