Jornal da Universidade Federal do Pará. Ano XXX Nº 130. Abril e Maio de 2016

Opinião: Mário Serra - engenheiro, matemático e amazônida

João Batista do Nascimento

por João Batista do Nascimento* / Agosto e Setembro de 2014
foto Adolfo Lemos

Vamos às profundezas da Amazônia observar o pescador mais tradicional e ecologicamente integrado: indígena que usa arco e flecha. Nosso pescador é do tipo que só molha os pés no estritamente necessário, situação em que pescador-peixe ocupam posições, respectivamente, ar-água, em meios de densidades diferentes, quando fenômeno físico, refração, impõe que veja o peixe em posição diferente da em que se encontra. Portanto, observa e faz, mentalmente, contas que determinam a posição exata e atira a flecha. Isso parece uma atividade simplória, especialmente ao que não tenha fome esperando pelo sucesso dessa jornada. O desejado aqui é expor a correlação desse episódio com alguns conceitos matemáticos.   

É fato que fazer esse cálculo em cada caso não é simples e serve para desmentir e desmitificar que tais pessoas não saberiam matemática. Em compêndios, podemos encontrar teorias mostrando como calcular trajetória 1-dimensional, caminho, curva de comprimento mínimo ligando posições pontuais. Por óbvio, no caso pescador-peixe, não há caminho de comprimento máximo e, dependendo do problema, pode haver este ou ambos. Em problemas similares, o intento é conseguido com gasto mínimo de tempo e/ou energia por meio dessa trajetória de comprimento mínimo.

Um pouco mais. Modelando matematicamente alguns desses problemas, a trajetória mínima compõe -se de um segmento de reta, indo da posição inicial até um ponto intermediário, seguindo, deste modo, até o ponto final, havendo uma quebra no ponto intermediário. Ocorre que a presença dessa quebra, chamada de não diferenciabilidade, tem implicações profundas em matemática.    

Deixemos o nosso pescador e vamos ao Campus do Guamá da Universidade Federal do Pará, em Belém, sem haver nisso preconceito de ir ao mais civilizado ou coisa do gênero. Em meados de 1950, tem início o Núcleo de Matemática, formado por engenheiros que se especializaram autodidaticamente nas principais disciplinas, complementaram os estudos ministrando cursos entre si e para alunos interessados, além de estudarem em outros centros. São o que podemos classificar, historicamente, como docentes pioneiros em matemática, da UFPA.

Desses, Mário Tasso Ribeiro Serra (1932 -1975) foi, antes de tudo, docente primoroso e de conhecimento matemático amplo. Como material de curso extra, portanto, avançado, Mário Serra, como é mais conhecido, produziu o que denominou de Pesquisa dos Extremos de uma Funcional, 1972, notas essas a mim cedidas pelo docente titular em Física, da UFPA, atualmente aposentado, José Maria Filardo Bassalo, o qual foi o datilógrafo do original.

Sendo quase mais preciso, máximos e mínimos podem ser extremos de estruturas abstratas, como no caso de funcionais. Nesse trabalho, Mário Serra determina isso de alguns dos quais só posso dizer que foi ele o criador quando todas as soluções satisfazem a mesma equação que ele chama de EQUAÇÃO DE CARMÉLIA, nome da sua genitora, traduzíveis por trajetórias 1-dimensional. Um desses mínimos que calcula é um caminho composto por dois segmentos de retas, com uma quebra.

Para concluir, não sei dizer se esse gostava de pescaria, mas, com certeza, foi um raro fisgador de bons alunos em sala de aula, o que pode ser atestado por diversos ex-alunos seus atuando como docentes, inclusive na UFPA, e em outras atividades. Além disso, em maio deste ano, a Faculdade de Matemática da UFPA comemorou 60 anos de existência, portanto, mais uma justíssima razão para termos saudosas lembranças do paraense Mário Tasso Ribeiro Serra.

*João Batista do Nascimento - Professor da Faculdade de Matemática/ICEN

comentários (3)
Mestre em Matemática pela Universidade Federal do Ceará - UFC
escrito por Antônio Falcão Neto, agosto 11, 2014
Parabéns professor João Batista pela idéia. Considero o texto prático e oportuno, pois não só retrata as caraterísticas regionais do pará, mas também resgasta a história do Departamento de Matemática dessa conceituada Instituição, quando você descreve muito bem ao afirmar, pois não tem conhecimento de que Mário Tasso era pescador, mas com certeza fisgou bons alunos que o representam muito bem na UFPa. Mais uma vez parabéns pela boa descrição. Abcs fraternal

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Pescaria
escrito por Elielzer de Souza Nuayed, agosto 16, 2014
O que eu entendi é que o mestre Mário Serra, ao modo indígena, filtrou a "refração" e pescou grandes futuros mestres.

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escrito por zilton fioravante filho, agosto 19, 2014
Gostei muito,João. Gostaria que permitisse sua publicação em meu blog (www.amazoniaacontece.blogspot.com.br). Informe se é possível. Abraço, Zilton.

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