Jornal da Universidade Federal do Pará. Ano XXX Nº 130. Abril e Maio de 2016

Exclusivo On line: Crescem os casos de HPV entre mulheres idosas em Belém


por Maria Luísa Moraes / Abril e Maio de 2016
foto Alexandre Moraes



As informações sobre doenças sexualmente transmissíveis estão cada vez mais acessíveis. Há vários métodos para manter relações sexuais de forma segura e, assim, evitar essas doenças. Entretanto, mesmo com toda essa informação, esses métodos nem sempre são utilizados. A professora Hellen Fuzii, do Laboratório de Imunopatologia do Núcleo de Medicina Tropical da UFPA, realizou a pesquisa “Aspectos clínicos e epidemiológicos da infecção genital por Papiloma Vírus Humano (HPV) em mulheres idosas em Belém-PA”, que apresenta dados sobre a prevalência do vírus na população feminina de Belém, a partir dos 60 anos.

O HPV está associado ao desenvolvimento de câncer do colo uterino, e a maior incidência desse tipo de câncer é em mulheres acima dos 50 anos. O Pará tem uma das maiores ocorrências de câncer de colo de útero do País, e o estudo sobre a prevalência do HPV pode ajudar a modificar este quadro. No entanto o HPV sozinho não é suficiente para levar ao câncer, são necessários outros fatores de risco associados.

Segundo dados do Instituto Nacional do Câncer (INCA), 13 tipos de HPV são considerados oncogênicos, ou seja, com potencial para desenvolver infecções mais persistentes  que causam câncer. Essas infecções podem levar ao desenvolvimento das chamadas lesões precursoras. “O HPV infecta as células do epitélio da cérvice uterina, desarranja a divisão celular e faz com que essa célula se multiplique mais do que deveria, o que pode causar erros e mutações no DNA. Isso pode levar ao desenvolvimento de câncer”, explica a professora.

Hellen Fuzii esclarece que, na maioria das vezes, a infecção pelo HPV se cura sozinha, “em geral, de seis meses a dois anos, o próprio sistema imunológico da mulher elimina o vírus. Muitas vezes, a mulher nem sabe que está infectada, passa despercebido”. Em alguns casos, pode ocorrer a persistência da infecção pelo HPV, aumentando as chances do vírus se integrar ao DNA da célula. Desse modo, ocorre a perda da proteína reguladora, o que leva à maior expressão de oncoproteínas (proteínas que têm potencial cancerígeno), possibilitando que a célula prolifere ainda mais, ocasionando o desenvolvimento de câncer.

Prevenção: Papanicolau pode detectar lesões precursoras de câncer

Para evitar o vírus, é importante a realização de exames periódicos, principalmente, o Papanicolau, que, embora não detecte o HPV, pode detectar lesões precursoras de câncer.  “O Papanicolau é um exame barato, que pode identificar lesões em estágio inicial, o que melhora o prognóstico da paciente. O câncer de colo uterino tem um alto índice de cura quando identificado no estágio inicial”, informa Hellen Fuzii.

A pesquisa focou mulheres idosas, pois dados mostram o aumento do número de mulheres infectadas pelo HPV nessa faixa etária. Entre as causas apontadas pela professora, está o tratamento de reposição hormonal, que é feito por algumas mulheres para aliviar os sintomas da menopausa, e também a modificação do comportamento sexual dessas mulheres. Nessa idade, muitas se separam dos maridos, encontram novos parceiros e prolongam a sua vida sexual.

Pelo Ministério da Saúde, o exame Papanicolau é recomendado para mulheres de 25 até 64 anos. Porém, com essa mudança do comportamento, é indicado que, mesmo após os 64 anos, a mulher continue a fazer esse tipo de exame. “Embora algumas mulheres não tenham mais vida sexual ativa, é importante que o exame continue sendo feito, porque nós estudamos a prevalência do HPV, e não a incidência, ou seja, se elas se infectaram agora, ou há mais tempo, não temos como saber. Pode ser uma infecção persistente e, consequentemente, com maior risco de desenvolvimento de câncer”, avalia a professora.

Em Belém, a pesquisa foi feita em Unidades Municipais de Saúde, nos bairros Marambaia, Jurunas e Telégrafo, e também em algumas Unidades especializadas, como a Casa do idoso e a Casa da Mulher. Cerca de 160 mulheres, todas acima dos 60, foram abordadas e perguntadas se queriam participar do estudo. “Nós explicamos como a pesquisa funcionava. Cada uma delas assinou um Termo de Consentimento Livre e Esclarecido”, afirma Hellen Fuzii.

Foi elaborado um questionário epidemiológico para levantar os fatores de risco para o HPV e também para o possível desenvolvimento do câncer de colo uterino. As respostas foram usadas para analisar os fatores mais evidentes nessa população em particular.

Público pesquisado tinha entre 60 e 83 anos

Hellen Fuzii explica o conteúdo do questionário: “nós tínhamos a parte sociodemográfica: idade, estado civil etc., mas também a parte comportamental: vida sexual, como a idade da coitarca (perda da virgindade), o número de parceiros na vida, número de parceiros no último ano, se ela tem ou não vida sexual no momento, entre outras perguntas, para que fosse possível relacionar essas informações”. A média de idade das mulheres pesquisadas foi de 68 anos, variando entre 60 e 83 anos.

Foi constatado que as mulheres que tiveram dois ou mais parceiros durante a vida apresentaram maior prevalência do vírus. Além disso, as mulheres que ainda têm vida sexualmente ativa também apresentam mais chances de contrair HPV, visto que os novos parceiros aumentam essa probabilidade.

Ser ou ter fumante é outra condição propícia ao surgimento do vírus. “Vários compostos no cigarro foram encontrados no colo uterino de mulheres fumantes. E esses compostos do cigarro, além de serem cancerígenos, afetam a imunidade local, ou seja, a mulher não consegue combater o HPV”, justifica a pesquisadora.

A falta de uso da camisinha, motivo bastante apontado como causa de DSTs entre os jovens, foi desconsiderada nessa população. Os resultados da pesquisa indicam que somente 11,95% das idosas utilizaram camisinha durante a vida. E, entre as que usaram, elas não utilizavam em todas as relações. Por se tratarem de idosas, a informação na época não era difundida como hoje, o que justifica esse resultado.

Hellen Fuzii ratifica que as lesões precursoras causadas pelo HPV podem ser identificadas e tratadas antes de se tornarem câncer. Basta a realização do Papanicolau pelo menos uma vez ao ano. Caso ocorram lesões, elas devem ser tratadas o quanto antes. Desse modo, a importância maior da pesquisa é o alerta para a prevenção, independentemente da idade.

comentários (0)

Escreva seu comentário
menor | maior

busy